Novembro traz consigo memórias que compulsivamente me assaltam, em forma de pesadelo. Até o Sol, com seu brilho excessivo, me incomoda, é inoportuno. Deixo que o tempo passe por mim, mas queria-o mais solidário com o meu estado de alma. Preferia o céu nublado, a chuva, o vento irado, o frio cortante.
Vivo os dias em quase total apatia, sem metas, sem motivação, como se o amanhã não passasse de uma miragem. Vivo ao sabor da corrente. Sou como um tronco de árvore que, depois de abatido, perdeu toda a sua imponência e vai rio abaixo, batendo aqui e além, caindo de precipícios, umas vezes deslizando suavemente, outras levado pela fúria das águas. Entregou-se ao rio. O rio que me transporta faz de mim o que quer. Não há barco, nem barqueiro que me lance o remo.
Lobo Antunes disse há tempos que " a morte é uma puta". Concordo com ele. E é tão puta que, quando chega, contagia a vida e faz dela sua companheira. Por isso, já não sei se diga "puta de morte" ou "puta de vida". Fico-me pela "vida de merda".