quinta-feira, 20 de julho de 2017

Pudesse eu suspender o pensamento,
Dormir tranquila na paz da inocência,
E não teria este forte sofrimento
Que faz dos meus dias turbulência.

Pudesse eu ter-te aqui para abraçar
E nos teus olhos ler sorrisos e ousadias
E não teria razão p'ra me queixar,
E seria mais feliz todos os dias.

Mas a vida nada disso me quis dar
E qualquer sonho meu é apenas utopia.
Resta-me só sentir o tempo a passar
E a alma, dia a dia, mais vazia.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Se há algo que a vida me tem ensinado ao longo dos anos é que o ser humano apresenta um grau de complexidade tão grande que, dificilmente, podemos confiar na análise que dele fazemos. E, claro, não estou a falar das estruturas física, fisiológica ou de componentes moleculares. A esse nível, a ciência parece estar bastante evoluída e, com uma margem de erro mínima, já se consegue saber como é e como funciona o corpo humano.
O grande enigma está em perceber o outro, do ponto de vista comportamental! Bem cedo aprendi que a palavra pessoa deriva de "persona", que, originalmente, significava "máscara"/"personagem". Nada mais verdadeiro.
Se olharmos para nós próprios, numa autorreflexão sincera, sabemos que, de facto, mudamos de "máscara" várias vezes ao longo do dia. São os vários papéis que a vida nos obriga a representar. Do meu ponto de vista, desde que essa máscara se limite à aparência, não virá daí mal ao mundo. Contudo, é lamentável quando o ser humano passa definitivamente a palhaço, a ilusionista, a actor a tipo inteiro.
Como aprenderemos a reconhecer e a lidar, por exemplo, com mentirosos compulsivos? Daqueles que te olham na cara e, fazendo de ti um perfeito idiota, te mentem com a maior das descontrações e se multiplicam em "justificações" dignas do maior argumentista cinematográfico?
Como aprenderemos a lidar com tantos "amigos" que, como dizia uma senhora que conheci, vêm só ao "semedão"?
Como conseguiremos perceber quem é que nos fala verdade e quem é que é digno de saber os nossos problemas?
Até que ponto poderemos continuar, como sempre nos ensinaram, a partir do princípio que todos os seres humanos são bons até prova em contrário? Não será melhor inverter a proposição e afirmar que "todos os seres humanos são maus até prova em contrário"?
Talvez eu hoje tenha acordado pessimista. Talvez eu até seja, aos olhos dos outros, uma má pessoa. Contudo, quando assento a minha cabeça naquela almofada que me serve de apoio durante a noite, a consciência não me pesa. Nunca fui mentirosa, nem desonesta, nem hipócrita. Mas...lido pessimamente com esse tipo de pessoas e, de dia para dia, cruzo-me com mais desses fantoches. Uns são-me indiferentes; outros, os que interferem no meu equilíbrio pessoal, fiquem com uma certeza: sou difícil de enganar e raramente engulo sapos, sobretudo depois de saber que nenhum deles vira príncipe!

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Quase oito da manhã. Domingo, dia de sol,
Com luz demais para os meus olhos cansados…
Em passo lento, em busca dum café forte
Que me alimente as forças que não tenho,
Atravesso o jardim, morada quase eterna,
De uns velhos que ali estão plantados,
De manhã à noite.
Torneio os seus lugares cativos,
Para evitar os seus olhares e a má-língua.
Comigo se cruzam várias personagens:
Os que correm, os que fogem,
Os que me evitam, cabisbaixos,
Os que têm tatuados nos rostos
E cristalizados nos olhos,
Os demónios em fogo de uma noite de álcool.
Sentada, beberico o meu café,
Mas não consigo ficar indiferente:
Sempre as mesmas personagens,
Os mesmos vícios a gastar,
As mesmas barrigas a render,
A mesma degradação humana.
Pergunto-me: isto é só crise?
Não o creio. É um modo de vida.
É falta de vontade de mudar.
É seguir o caminho mais fácil,
Mesmo à conta de outros que se esforçam.
Acabo o meu café e regresso.
Vejo a minha gata na cestinha
E invejo-lhe a irracionalidade.
Quanto a mim, invariavelmente,
Voltarei a tomar outros cafés,
A ver as mesmas flores, a mesma gente…
Para fugir a uma sesta
Neste dia de calor
Vou aqui apresentar-me
Com pompa e todo o rigor.
Sou perfeita a cozinhar
Excelente dona de casa,
A mais fina costureira,
A minha beleza arrasa.
Sou uma famosa artista,
Nos mais diversos sectores,
Faço escultura e desenho,
Pintura em todas as cores.
Sei ballet, toco piano,
Fiz teatro, falo francês,
Já viajei pelo mundo,
Hei de fazê-lo outra vez.
Vivo num belo palácio,
Tenho herdades e iates,
Na garagem, só Ferrari’s
Pedras de vários quilates.
Só compro alta costura,
Malas, só Louis Vuitton,
Sapatos só de encomenda,
O mesmo com o baton.
Dinheiro nem sei a conta,
Brasões em todos os cantos,
Na família só há duques,
Reis, barões e até santos.
Não falo a toda a gente,
Pois gentinha não existe,
Estou sempre muito feliz,
Nem sequer sei o que é triste.
Muito mais há a dizer,
Mas não gosto de me expor,
Gente ilustre como eu
Não fala do seu valor.

domingo, 19 de março de 2017

A mágoa, a ferida, o coração despedaçado,
Sem forças, sem vontade, sem futuro,
É o que vejo no meu rosto estilhaçado,
Que caminha, decadente, para o escuro.

A vida, não sei que é, nem vou saber...
Eu fui sendo levada pelo tempo
E agora, que me resta senão ser
Um caminhante arrastado pelo vento?

Ninguém ouse dizer que me entreguei,
Que fui insana, fútil ou indolente!
Eu apenas obedeço à estranha lei
Que me faz servir a muita gente...



quarta-feira, 15 de março de 2017

Palavras,
Pensamentos,
Dúvidas,
Tormentos...
Cansaço?
Ansiedade?
Problemas da idade?
Palavras, palavras,
Inquietas, perdidas..
Mas sois todas vós
Por demais sentidas.
Não trazeis respostas,
Não levais a dor,
Por isso vos peço:
Parem, por favor!

domingo, 12 de março de 2017

Sou a nuvem levada pelo vento,
A rajada que derruba a simples folha,
O rio que corre, sem parar um só momento,
A gota de água que cai e não tem escolha,
A rocha dura se assim tiver se ser,
O furacão que investe e perde força,
A tempestade que acalma após chover.
Sou aquela que não sabe o que é de si,
Que pensa e sofre a impotência que a domina,
Que é mulher, mas que pouco foi menina,
Que se revolta, mas não passa de ameaça,
Aquela que já sabe o que é desgraça,
Que procura um sentido para a vida,
Que sorri, mesmo quando está perdida.
Tenho projectos, sobretudo por cumprir,
Ousadias de que estou sempre a fugir,
Caminho a medo o percurso dos meus dias,
Doseio com calma as minhas cobardias,
E vou seguindo de cabeça levantada,
Nesta vida onde se joga o tudo ou nada.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016


         Sei muito pouco de tudo. De sociologia, confesso, não sei mesmo nada. Contudo, quando saio sozinha pela cidade (a que me viu nascer ou outra qualquer) e observo as pessoas com mais atenção, dou por mim a questionar-me acerca de alguns comportamentos. Foi o que aconteceu hoje.
         Saio da escola, no fim do dia, e passo pelo supermercado. Entro e, à minha direita, verifico que as mesas estão ocupadas pelas pessoas de sempre: um velho que percorre habitualmente os cafés desta cidade, para, com calma, olhar as mulheres à sua volta. É costume estar com um copo de vinho do Porto. Hoje, porque o local não fornece esse tipo de bebidas, tinha uma cerveja e um saco de amendoins. Comia com lentidão e o seu olhar perscrutava os vultos femininos, que devorava com ousadia; noutras mesas, as mesmas mulheres de sempre, que quase habitam o espaço, de moeda na mão, raspando cartões que lhes consomem tudo menos a esperança. A nós, consomem o dinheiro que, generosamente, entregamos ao estado para a ação social. Não se trata de indigentes ou incapazes. Nada disso. São, quase exclusivamente, pessoas que se relacionam mal com o trabalho. A sua atividade resume-se a três coisas: receber os subsídios, ir buscar as refeições já preparadas à instituição que lhas dá e jogar, enquanto saboreiam uma bebida ou um café; do outro lado do balcão, duas jovens despenteadas e já meio desfraldadas, dividem-se entre múltiplas tarefas e máquinas registadoras, a troco de um mísero vencimento no fim do mês. Por enquanto, resistem.
       Continuo o meu caminho, compro a única coisa de que precisava e saio. À minha frente, uma jovem, com os seus vinte e poucos anos, arrastava-se para a saída do estabelecimento, com uma garrafa de um sumo qualquer na mão e falava sozinha. Olhei-a, julgando que fosse apenas um comentário ocasional. Não era. Era outro olhar vazio, numa conversa imaginária sabe-se lá com quem. 
        Entro no carro e tento apagar as imagens anteriores. Em vão. Quando paro e me preparo para sair, olho, casualmente, para o jardim em frente. O cenário de sempre: uma mulher solitária, que costuma consumir muito do seu tempo nos cafés da avenida, entre bolos e cafés, num monólogo constante, está num dos bancos do jardim. Ri-se e fala sozinha, como sempre. A certa altura, levanta-se. Poder-se-ia imaginar que chegara a hora de voltar para casa. Não. Muda apenas de banco. A poucos metros dali, grupos de homens (uns reformados, outros desempregados). Uns dormitam, outros discutem o mesmo de sempre. 
        Na avenida, do outro lado do jardim, vejo um homem que, todos os dias, a várias horas do dia, arrasta o seu “tesouro” num carrinho de compras e debaixo do braço, pois não o confia a ninguém. Saberá ele, atrás daquele olhar vazio e meio lunático, que o seu tesouro vale zero? Ou será apenas o desespero de quem já teve um pequeno tesouro nas mãos e o esbanjou? Só ele saberá ou talvez não.
        Tenho a certeza que, se o meu olhar alcançasse mais longe, veria, à mesa de um qualquer café, o mesmo solitário que dormita dias inteiros para “fugir” do local onde vive; os casais desempregados que passeiam os filhos dela, os filhos dele e os filhos de ambos; as fumadoras sem dinheiro; a gente exausta pelo trabalho sazonal, longínquo e duro, que afoga o cansaço e o seu precioso vencimento em vapores de álcool e tantas, mas tantas, outras figurinhas típicas do mundo de hoje.
       Crise? Claro que sim. Apenas económica? Nem pensar. É, sobretudo, uma crise de valores. É um desnorte coletivo.
       Volto as costas e entro na minha consciência. Decerto não serei exceção a esta imagem decrépita que vejo da sociedade. Qual será a minha neurose? Por agora, decido fechar-me no meu quarto e fingir que está tudo bem. 
H. G. - 27.09.2016

terça-feira, 13 de setembro de 2016

De repente, paras...
Olhas em teu redor
E sentes o desconforto
Da solidão entre gente,
Da aridez dos olhares,
Da frieza dos gestos,
Da hipocrisia das palavras...
Descobres ao fundo,
Reflectida num espelho indiscreto,
A imagem do teu rosto.
Aqueles sulcos profundos
Que com as tuas mãos percorres
São marcas da vida
Traços da erosão profunda
Que o tempo te causou.
Procuras o brilho de outrora
E não há réstia dele.
Foi-se com a esperança.
Fechas os olhos
E imaginas-te longe,
No conforto da solidão autêntica,
Sem risos maliciosos,
Sem ecos fantasmagóricos,
Sem gestos estudados,
Na paz que tanto anseias.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Roubam-me o sorriso
E eu consinto...
Tiram-me a paz
E eu nada faço...
Levam-me os dias
E eu parada...
Que inércia a minha!
Estarei louca?
Apenas cansada?
Que trancas me prenderam
Nesta encruzilhada?