sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Quando os outros é que importam, mas tu não
Quando os outros tudo querem, mas tu não
Quando os outros só te usam e se lamentam,
E acham que não fazes quanto podes,
Se te restarem forças lá no fundo,
Respira intensamente e grita ao mundo
Que és apenas gente e nada mais,
Que também sentes as tristezas dos demais
E tens milhares de dores que silencias,
E que, se calhar, também tu apenas querias
Delegar noutros o peso que carregas,
Aconchegar a cabeça no lençol,
Dormir tranquilamente a noite inteira
E acordar apenas porque há sol!

terça-feira, 24 de outubro de 2017

E,no final, há apenas silêncio...
Há a paz desejada,
A tranquilidade que sempre nos fugiu,
O sono oferecido e eterno.
Não deveríamos chorar o fim, 
Antes celebrá-lo entre rosas e amigos!
Quando nascemos, choramos.
Porque nos iludimos então?
Se nascer fosse uma dádiva,
Se vir ao mundo merecesse celebração,
Decerto começaríamos
Ao som de uma bela canção...

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

E, por vezes, os dias têm meses
E são meses que mais parecem anos,
Quando na vida são poucos os interesses
E o teu percurso está cheio de desenganos.

E, por vezes, os dias são cinzentos,
Por vezes, o céu só tem neblina
E o longe não se vê, nem se imagina
E ficas fustigada pelos ventos.

Por vezes, as águas ficam turvas
E os ventos sibilam, desvairados,
E há trovões, relâmpagos, até chuvas
E os remos do teu barco já quebrados.

E as águas, hora a hora, mais profundas
E tu, sem forças, sem vontade, em estilhaços...
E não ousas, e não vives, só te afundas
Com tua alma desfeita em mil pedaços.

A vida, que foi sonho, é pesadelo
O sonho, que foi grande, é utopia
E tu, impotente, em agonia,
Sentes o coração tornar-se em gelo.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Longos são os dias
Em que me perco
Nas memórias de tempos que não voltam,
Em silêncios que pesam e torturam,
Em confusos labirintos do ser.
Longas são as noites
Em que procuro a paz
E encontro apenas a ausência,
O pesadelo que me sufoca,
A pesada escuridão.
Longa é a vida,
Quando nada resta,
Quando o sonho se perdeu
E tudo é desilusão...
Só me resta o olhar,
Perdido no vazio,
Sem saber onde encontrar
O leme do navio...
No que é que estou a pensar,
Neste dia de calor,
Pergunta-me a geringonça,
Que até se julga um primor.
Não sei se penso, se durmo,
Se apenas tento esquecer,
Estou aqui a olhar pra ti
Por nada ter que fazer.
Para a rua não posso ir,
Que me mata o sol ardente,
Fico aqui a dormitar
E finjo que estou contente.
Se não quiser dormitar,
Bebo cafés sem destino,
Logo à tardinha nem sei
Para onde me foi o tino.
Domingo é dia monótono,
E passa tão lentamente
Que logo depois do almoço
Começo a ficar doente.
Não sei se te respondi
E se já estás satisfeito,
Eu não te posso dizer
Tudo o que sinto no peito.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Quando a noite vai caindo lentamente
E o silêncio vai ouvindo a tua dor,
E não sabes se estás triste, se doente,
Se é falta de sorte ou de rigor,

Quando vês a tua vida já passada
E pensas um pouquinho no porvir
E lamentas não teres feito quase nada,
E sabes que em breve vais partir,

Quando só sentes mágoa e impotência,
Te revoltas, te acusas de indulgência,
Mas sabes que assim irás viver,

Não lutes mais. Não percas a paciência.
Aceita que foi tua a incompetência
E espera o teu perpétuo adormecer!

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Pudesse eu suspender o pensamento,
Dormir tranquila na paz da inocência,
E não teria este forte sofrimento
Que faz dos meus dias turbulência.

Pudesse eu ter-te aqui para abraçar
E nos teus olhos ler sorrisos e ousadias
E não teria razão p'ra me queixar,
E seria mais feliz todos os dias.

Mas a vida nada disso me quis dar
E qualquer sonho meu é apenas utopia.
Resta-me só sentir o tempo a passar
E a alma, dia a dia, mais vazia.

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Se há algo que a vida me tem ensinado ao longo dos anos é que o ser humano apresenta um grau de complexidade tão grande que, dificilmente, podemos confiar na análise que dele fazemos. E, claro, não estou a falar das estruturas física, fisiológica ou de componentes moleculares. A esse nível, a ciência parece estar bastante evoluída e, com uma margem de erro mínima, já se consegue saber como é e como funciona o corpo humano.
O grande enigma está em perceber o outro, do ponto de vista comportamental! Bem cedo aprendi que a palavra pessoa deriva de "persona", que, originalmente, significava "máscara"/"personagem". Nada mais verdadeiro.
Se olharmos para nós próprios, numa autorreflexão sincera, sabemos que, de facto, mudamos de "máscara" várias vezes ao longo do dia. São os vários papéis que a vida nos obriga a representar. Do meu ponto de vista, desde que essa máscara se limite à aparência, não virá daí mal ao mundo. Contudo, é lamentável quando o ser humano passa definitivamente a palhaço, a ilusionista, a actor a tipo inteiro.
Como aprenderemos a reconhecer e a lidar, por exemplo, com mentirosos compulsivos? Daqueles que te olham na cara e, fazendo de ti um perfeito idiota, te mentem com a maior das descontrações e se multiplicam em "justificações" dignas do maior argumentista cinematográfico?
Como aprenderemos a lidar com tantos "amigos" que, como dizia uma senhora que conheci, vêm só ao "semedão"?
Como conseguiremos perceber quem é que nos fala verdade e quem é que é digno de saber os nossos problemas?
Até que ponto poderemos continuar, como sempre nos ensinaram, a partir do princípio que todos os seres humanos são bons até prova em contrário? Não será melhor inverter a proposição e afirmar que "todos os seres humanos são maus até prova em contrário"?
Talvez eu hoje tenha acordado pessimista. Talvez eu até seja, aos olhos dos outros, uma má pessoa. Contudo, quando assento a minha cabeça naquela almofada que me serve de apoio durante a noite, a consciência não me pesa. Nunca fui mentirosa, nem desonesta, nem hipócrita. Mas...lido pessimamente com esse tipo de pessoas e, de dia para dia, cruzo-me com mais desses fantoches. Uns são-me indiferentes; outros, os que interferem no meu equilíbrio pessoal, fiquem com uma certeza: sou difícil de enganar e raramente engulo sapos, sobretudo depois de saber que nenhum deles vira príncipe!

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Quase oito da manhã. Domingo, dia de sol,
Com luz demais para os meus olhos cansados…
Em passo lento, em busca dum café forte
Que me alimente as forças que não tenho,
Atravesso o jardim, morada quase eterna,
De uns velhos que ali estão plantados,
De manhã à noite.
Torneio os seus lugares cativos,
Para evitar os seus olhares e a má-língua.
Comigo se cruzam várias personagens:
Os que correm, os que fogem,
Os que me evitam, cabisbaixos,
Os que têm tatuados nos rostos
E cristalizados nos olhos,
Os demónios em fogo de uma noite de álcool.
Sentada, beberico o meu café,
Mas não consigo ficar indiferente:
Sempre as mesmas personagens,
Os mesmos vícios a gastar,
As mesmas barrigas a render,
A mesma degradação humana.
Pergunto-me: isto é só crise?
Não o creio. É um modo de vida.
É falta de vontade de mudar.
É seguir o caminho mais fácil,
Mesmo à conta de outros que se esforçam.
Acabo o meu café e regresso.
Vejo a minha gata na cestinha
E invejo-lhe a irracionalidade.
Quanto a mim, invariavelmente,
Voltarei a tomar outros cafés,
A ver as mesmas flores, a mesma gente…