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domingo, 17 de junho de 2007

Fantasmas



Sinto-me disléxica. Por mais que tente, não consigo soltar as palavras de que preciso para exprimir o que sinto, apesar de, na minha cabeça, ter mil vozes fantasmagóricas que proferem palavras desconexas, numa vertigem incontrolável.


Acho os dias absurdos. Não encontro solução para a longa equação das minhas dúvidas. Tudo em mim é projecto abandonado e, ao mesmo tempo, é culpa pelo abandono. Em tudo procuro remédio para esta angústia que me deixa exausta. No fundo, sei que o meu problema está identificado e é insolúvel. Mas isso de nada me vale. Continuo a não aceitar que tenha perdido tão cedo o meu porto de abrigo. O teu sorriso. O teu toque. As tuas carícias. O veludo dos teus lábios. As nossas músicas. As nossas danças. Os nossos passeios. A nossa vida.


Tudo se dissipou e resta apenas a memória, mas mesmo essa surje, aqui e além, maculada pela alucinante expressão do teu sofrimento, de dor, de delírio, da indelével tristeza que acompanhou os teus últimos dias. E eu não pude fazer nada, nada, nada... Que sentimento de impotência e que revolta... Que saudade, meu amor!


quarta-feira, 16 de maio de 2007

Palavras que podiam ter sido tuas...

"Não acreditava que um dia destes chegasse. E agora, Março de 2007, veio com a brutalidade de uma explosão no peito. Não imaginava que fosse assim, tão doloroso e, ao mesmo tempo, tão pouco digno como a velhice e a decadência. Tão reles. O olhar de pena dos outros, palavras de esperança em que não têm fé" – escreve Lobo Antunes.
Sobre o cancro, escreve: "Mói e mata. Mata. Mata. Mata. Mata. Levou-me tantas das pessoas que mais queria. E eu, já agora, quero-me? Sim. Não. Sim. Não — sim."
Encontrei hoje, por acaso, estas palavras de Lobo Antunes. Senti um arrepio. Nunca nenhuma das suas crónicas me fizera sentir assim. É que esta é isenta de ironia, é fruto da consciência de um sofrimento sem fim, do precipício incontornável, da viagem certa, apenas sem data marcada.
Nunca nada nem ninguém pode confortar um doente de cancro. A sua vida desaba no momento em que é feito o diagnóstico. Ao contrário de Lobo Antunes, eu diria: O cancro mói. Mói.Mói.Mói.Mói.Mói. Mata.